Os limites da educação na mobilidade social

O quanto a educação dos pais influencia a vida dos filhos? Na semana passada, o IBGE divulgou os resultados de uma pesquisa sobre mobilidade sócio-ocupacional que nos ajuda a responder esta questão. Os dados comprovaram o que muitos educadores e também indicadores –como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)– já sinalizavam: a situação dos pais ainda é determinante para renda, escolaridade e emprego dos filhos.

Segundo o estudo, quase metade das pessoas com mais de 25 anos avançaram na escolaridade em comparação com seus pais. Contudo, esse salto está diretamente relacionado à escolaridade deles. Por exemplo, constatou-se que apenas 4% das pessoas cujos pais não tinha nenhuma instrução conseguiu completar o Ensino Superior, e mais de três em cada quatro filhos de pais analfabetos não concluíram o Ensino Médio.

Quando olhamos para famílias com pais que têm Ensino Superior completo, 69% dos filhos concluem este nível de ensino. A pesquisa destaca também que o convívio com a mãe tem um impacto maior na trajetória educacional das crianças e jovens, comparando as diferenças entre famílias chefiadas por mães, pais ou ambos.

Os dados ainda revelam que os salários dos pais e suas profissões têm relação com a idade em que os filhos começam a trabalhar e com seus futuros rendimentos. É importante destacar que existe uma grande barreira para os filhos cujos pais não têm instrução alguma. Mesmo quando os jovens completam o Ensino Superior, seus salários ficam em torno de R$ 2.603. Para jovens cujos pais possuem Ensino Superior Completo, esse número sobre para R$6.739 –158% a mais.

Mais uma vez, constata-se que no Brasil ainda muitos avançam pouco e recebem pouco, enquanto poucos avançam muito e recebem muito. Mas, afinal, por que isso acontece? No caso específico da educação, pesquisas do Cenpec têm apontado os ganhos de uma escola de tempo integral no Ensino Médio em diversas redes estaduais brasileiras. No entanto, elas seguem essa cultura de privilegiar uma minoria que já tem um nível socioeconômico mais alto, enquanto a maioria dos estudantes frequentam a escola regular com uma precária qualidade do ensino, expressa nos baixos índices das avaliações.

Essa situação das escolas integrais é reforçada por um ambiente culturalmente mais avançado, que contribui para a maior qualidade da escola, assim como amplia as possibilidades de contatos e de redes a que esses estudantes têm acesso. Por exemplo, um aluno de uma escola na qual os pais possuem empregos e níveis educacionais melhores poderá no futuro ser indicado para uma boa vaga de emprego por um destes pais, oportunidade que alunos de escolas com famílias mais vulneráveis não têm. Assim, assistimos a uma espiral positiva que certamente trará impactos favoráveis na trajetória desses alunos. O mesmo fenômeno acontece nas escolas técnicas estaduais ou federais que selecionam a entrada de seus alunos.

É urgente debatermos essa cultura da desigualdade que está impregnada nos mais diferentes setores da sociedade com o discurso de que é melhor oferecer qualidade para alguns, pois pelo menos esses são salvos, do que não oferecer uma boa educação para nenhum.
Para termos um Brasil mais igual, precisamos dar mais a quem tem menos, priorizando a universalização dos direitos, e não apenas das políticas. Isso exige políticas de longo prazo, customizadas de acordo com os diferentes territórios que apresentam diferentes realidades.

Obviamente, a implantação de políticas para setores e territórios de alta vulnerabilidade social requer custos, muitas vezes mais altos. Mas é importante termos uma visão de longo prazo que inclua a todos, ainda que de forma gradual. O que não podemos mais admitir é a implantação de políticas que privilegiam poucos enquanto não há um planejamento para a igualdade de direitos de todos.

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Trump e o alerta para escutar a sociedade

Após a divulgação dos resultados das eleições americanas, em que Donald Trump foi o vencedor, as primeiras reações foram de espanto, incredulidade e tristeza. Mais uma vez, vemos uma onda conservadora que se espalha por diferentes regiões do planeta.

Sem dúvida, na gestão de Trump as questões de gênero, étnico-raciais, os temas sociais (especialmente os relativos à previdência e saúde) e as questões tributárias e econômicas sofrerão grandes retrocessos, se confirmadas as promessas da campanha do candidato republicano. Mas afinal, por que o mundo foi pego de surpresa com os resultados destas eleições?

Alguns analistas já alertam para a surdez que abateu a todos (incluindo a mídia, institutos de pesquisa e o próprio partido Democrata). Em meio à torcida contra Trump, estes grupos ignoraram os anseios do eleitorado que votou no candidato, acreditando que ele não venceria.

Um misto de arrogância e desqualificação para com aqueles que pensam e agem de forma mais conservadora tomou a mídia e a maioria dos acadêmicos e formadores de opinião, assim como os democratas e as esquerdas de modo geral. Não houve preocupação em entender as causas de um descontentamento que deu espaço para esse enorme contingente de pessoas e grupos que sentiam-se marginalizados econômica e socialmente, e acabaram por apoiar o empresário que prometia devolver a América para os americanos.

Análises do dia seguinte ajudam a entender o comportamento do eleitorado. Vários estudos e pesquisas indicam que o crescimento das desigualdades no país se relaciona com a sensação de uma classe média baixa e branca de ficar para trás ao perder os postos da indústria. Já a população rural –e majoritariamente branca– de pequenas cidades americanas, sobretudo no centro-oeste, mostrou-se contrária às ações afirmativas aos negros e à abertura e aumento constante da imigração.

Acrescenta-se ainda à insatisfação dos americanos mais conservadores o avanço nas leis relativas a valores que questionam costumes e crenças arraigadas nessa população, tais como o aborto, o casamento gay, a liberação da maconha, dentre outros.

A sensação de invisibilidade dentre os mais conservadores gerava enorme ressentimento e rancor, e essa população viu nas promessas de Trump um caminho para sentir-se reconhecida e respeitada, ao contrário do que ocorria com Hillary, que os chamou de deploráveis.

Esse é um breve retrato de um momento complexo, que exige muito amadurecimento e sensibilidade não só para os americanos mas para todas as sociedades, pois ele traz maiores responsabilidades para o debate e para as intervenções das diferentes forças progressistas.

Dando um salto nessa análise para pensar o papel da educação no Brasil em um contexto mais conservador, podemos dizer que temos um longo caminho a percorrer. Penso que, antes de mais nada, precisamos aprofundar nossa escuta. Recentemente, ela se ampliou para ouvir jovens, negros, mulheres, gays e trans, mas pouco se abriu para escutar mais atentamente as diferentes crenças evangélicas, que aumentaram significativamente nos últimos anos – e adquiriram expressiva representação política, como é o caso da eleição de Crivella no Rio de Janeiro e da composição de grandes bancadas na Câmara de vereadores de São Paulo e de outras cidades.
Entender o que leva tantas pessoas a essa religião, o que está por trás desses grupos e quais seus anseios é parte integrante de um novo olhar necessário à sociedade. O aprofundamento da escuta deve nos levar a entender também as relações das periferias com ações e comportamentos que transitam entre o lícito e o ilícito e resultam em um maior número de famílias com algum de seus membros cumprindo penas ou medidas socioeducativas. Finalmente, merecem também atenção os territórios com maior influência do tráfico, e seus desdobramentos possíveis.

Atuar em projetos e programas de organizações da sociedade civil ou implementar políticas públicas que possam trazer resultados concretos ou impactos transformadores exige uma escuta atenta. Mais do que isso, devemos buscar a participação desses diferentes setores que compõem a sociedade e querem ser ouvidos e reconhecidos.

Ao escrever esse artigo, me veio à memória um pequeno exemplo que me parece significativo, e que ocorreu durante uma atividade com um grupo de jovens da Zona Leste que participavam de projetos da Fundação Tide Setubal. No ano passado, ao discutir a redução da maioridade penal, a maioria dos jovens tinha uma posição favorável à proposta, para espanto dos coordenadores do projeto.

Mas, ao invés de adotar uma postura de confronto ou de doutrinação, os coordenadores incentivaram o debate sobre as diferentes questões envolvendo a redução da maioridade penal. Ao final de uma longa conversa com uma mediação aberta e pedagógica, os jovens concluíram que, para serem coerentes com seus posicionamentos, deveriam ser a favor do veto à proposta de lei.

Acredito ser esse o papel da educação: aproximar-se das pessoas sem um julgamentos ou ideias pré-concebidas, mas buscando entender seu contexto e suas raízes. A partir desta compreensão, é possível desencadear uma discussão democrática que contribua para a construção de conhecimentos e argumentos que validem um posicionamento. E isso nem sempre coincide com nossos valores. Os adolescentes e jovens estão ávidos para entender e debater as questões do mundo contemporâneo. Por isso, a escola não pode se ausentar de seu papel de construir pontes entre o conhecimento e a sociedade atual, envolvendo alunos de todas as origens e crenças.

Publicado originalmente no UOL Educação em 16/11/2016

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Vozes femininas e feministas ecoam na periferia de São Paulo

A sétima edição do Festival do Livro e da Literatura de São Miguel Paulista, que acontecerá entre os dias 9, 10 e 11 de novembro, traz como tema as Narrativas de Gênero: feminino, feminismo e outras histórias. O evento faz parte da celebração dos 10 anos da Fundação Tide Setubal, e para simbolizar o acesso democrático ao conhecimento e à literatura contará com livros pendurados em árvores, que poderão ser colhidos pelos moradores. Mas afinal, qual foi o motivo da escolha desse tema para o festival?

A partir da intensificação da discussão da temática de gênero na educação, nos meios de comunicação, na arte e na sociedade em geral, o festival quer enfatizar a presença feminina e a sua produção literária como afirmação de sua identidade também na literatura.

Ganha destaque no evento a produção negra e periférica, representadas no Sarau das Pretas e na Literatura Black, assim como nas histórias africanas para crianças, dentre outras atividades.

A presença de diferentes escritoras deverá apoiar os debates sobre os direitos e a luta pela convivência harmoniosa entre os múltiplos gêneros e sexualidades. Conforme discutido pela filósofa americana Angela Davis nas décadas de 70 e 80, a combinação entre machismo e racismo coloca a mulher negra em uma posição de maior vulnerabilidade e exploração, à medida que elas eram as principais vítimas de estupros e agressões.

A organização do evento foi bastante participativa. Escolas, alunas, alunos, coletivos, movimentos e grupos feministas, artistas e o Centro de Referência da Mulher e LGBT de São Miguel Paulista se uniram à fundação para criar novos formatos de apresentação da temática de modo a interagir com os diferentes públicos de diferentes idades. As atividades se estenderão por 47 pontos do bairro, demonstrando intensa participação da comunidade e o uso do espaço público.

Diálogos femininos, saraus, intervenções e instalações, contações de histórias, rodas de conversa com autores, blogueiras, poemas recitados, espetáculos de teatro e dança – dentre outras atividades – revelarão diferentes abordagens para o feminino, o feminismo e tantas outras histórias e narrativas. O ativismo e a política também estarão presentes no evento.

Exemplos são a Marcha pelo Fim da Violência contra as Mulheres (que conta com a participação e mobilização do Centro de Referência da Mulher Onoris Ferreira Dias de SMP), a Marcha Mundial das Mulheres, a Batucada Feminista e a participação de grupos e movimentos como a Sempreviva Organização Feminista, a Associação de Mulheres da Zona Leste, o Fórum de Mulheres de São Miguel, o Centro de Cidadania LGBT Laura Vermont, além das Secretarias Municipais das Mulheres, Direitos Humanos e da Subprefeitura de São Miguel.

A Caminhada Contra o Machismo marca a abertura do Festival no dia 9, das 9 às 11 horas, e terá início na Praça Do Forró. Todos que desejarem poderão participar com seus cartazes, para que as vozes das periferias possam ecoar pela cidade.

O Festival do Livro e da Literatura de São Miguel já se tornou evento tradicional no calendário da cidade, afirmando a potência e protagonismo das periferias também na literatura. Além disso, o evento destaca a diversidade e pluralidade cultural de São Paulo e a importância de se construir pontes e conexões entre as diferentes regiões da cidade.

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Juntos e Misturados no espaço público

Nos últimos anos em São Paulo, o espaço público volta a ser ocupado por grupos diversos: comemorações de Copa do Mundo, blocos de carnaval, as Viradas Cultural, Esportiva, Saúde e de Sustentabilidade, diferentes manifestações de jovens e da população em geral em torno de posicionamentos políticos assim como também as atividades de lazer com a Paulista Aberta. Temos ainda as discussões em torno de espaços como o Minhocão ou os Parque Augusta e dos Búfalos e as já tradicionais Parada Gay e Marcha de Jesus.

O novo cenário do espaço público pode estar trazendo novas perspectivas e aprendizagens para a cidade colocando temas como diversidade cultural, desigualdades sociais, questões de gênero fora dos âmbitos das universidades e alcançando literalmente as ruas.

Vou dar um passo para trás para que eu possa explicitar melhor meu argumento. O projeto Mundo Jovem realizado pela Fundação Tide Setubal, tem o Direito à cidade, como um dos eixos de sua atuação. Nesse contexto, várias saídas são organizadas, dentre elas um dia de passeio pela Paulista, onde parques, centros culturais e shopping fazem parte da programação. Em 2014, esse grupo de jovens, acompanhados de 2 monitoras sofreram várias ações de discriminação, reveladoras de preconceitos de seguranças, funcionários e pessoas em geral.

Neste ano de 2016, no escopo desse mesmo projeto, outro grupo de jovens com o mesmo perfil e acompanhados pelas mesmas monitoras fizeram o mesmo percurso na Av. Paulista, mas encontraram uma recepção solícita e acolhedora em todos os espaços visitados e não houve relato de nenhum caso de discriminação.

Pode ser apenas uma simples coincidência, mas eu tendo a considerar que não foi mero acaso.
A complexidade da sociedade atual traz à tona de um lado, ondas conservadoras não só de partidos políticos, mas também de grupos religiosos. De outro lado, no entanto, todo debate instalado na mídia, nas redes sociais e nas ruas trazem esse debate para mais perto das pessoas e possibilita como consequência, atitudes menos preconceituosas e mais inclusivas.

Trata-se de uma disputa política por diferentes visões de mundo e de ser humano. Mais do que nunca é importante nos posicionarmos pela preservação dos direitos humanos e busca de equidade.

Publicado originalmente no UOL Educação 01/11/2016

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